O doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria, com ampla expertise na área e fundador do projeto social Humaniza Sertão, compreende que cuidar da boca do idoso é cuidar de sua saúde como um todo. Por isso, dentistas voluntários fazem parte da equipe multidisciplinar do projeto desde o início.
A saúde bucal é uma das dimensões mais negligenciadas no cuidado ao idoso, tanto pelas famílias quanto pelo sistema de saúde em geral. Dores de dente toleradas em silêncio, próteses mal ajustadas que dificultam a alimentação, infecções bucais que afetam o coração: esses são problemas reais e frequentes entre idosos brasileiros, especialmente os que vivem em situação de vulnerabilidade.
Neste artigo, você vai entender a conexão profunda entre saúde bucal e saúde geral na terceira idade, por que esse cuidado é frequentemente negligenciado e como iniciativas como o Humaniza Sertão estão mudando essa realidade no sertão cearense.
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Qual é a relação entre saúde bucal e saúde geral no idoso?
A boca é a porta de entrada do organismo, e o que acontece nela tem consequências diretas para o restante do corpo. Infecções e inflamações bucais não tratadas liberam bactérias na corrente sanguínea que podem atingir o coração, os pulmões e outros órgãos vitais. Estudos na área da geriatria demonstram que problemas periodontais não tratados estão associados a maior risco de doenças cardiovasculares, pneumonias aspirativas e agravamento do controle glicêmico em diabéticos.
Segundo o doutor Yuri Silva Portela, essa conexão entre saúde bucal e saúde sistêmica é especialmente relevante para idosos, que frequentemente apresentam múltiplas condições crônicas que podem ser agravadas por problemas dentários não tratados.
Tratar um idoso diabético sem cuidar de sua saúde bucal é oferecer um cuidado incompleto que compromete os resultados de toda a abordagem terapêutica. A boca precisa ser parte do plano de cuidado geriátrico, não um item separado e opcional.
Por que idosos vulneráveis têm menos acesso ao cuidado odontológico?
O acesso ao atendimento odontológico no Brasil ainda é profundamente desigual. Para idosos em situação de vulnerabilidade socioeconômica, especialmente os que vivem em áreas rurais e de difícil acesso, consultar um dentista regularmente é uma realidade distante. Os custos do tratamento, a escassez de serviços públicos especializados e a dificuldade de deslocamento são barreiras que, combinadas, resultam em anos de problemas bucais acumulados sem tratamento adequado.
De acordo com o doutor Yuri Silva Portela, muitos idosos atendidos pelo Humaniza Sertão chegam às ações do projeto com condições bucais que nunca receberam qualquer atenção profissional. Dentes perdidos sem reposição, infecções crônicas que já se tornaram parte do cotidiano e próteses antigas que não se encaixam mais adequadamente são situações comuns que geram sofrimento silencioso e consequências sérias para a saúde geral.
Como a alimentação e a saúde bucal se influenciam mutuamente?
A relação entre alimentação e saúde bucal no idoso é bidirecional e profunda. Problemas dentários comprometem a capacidade de mastigar adequadamente, levando os idosos a evitar alimentos mais duros e nutritivos, como carnes, vegetais crus e frutas. Yuri Silva Portela elucida que essa restrição alimentar resulta em deficiências nutricionais que afetam a imunidade, a cicatrização e a saúde óssea, criando um ciclo vicioso que prejudica simultaneamente a boca e o corpo.

Por outro lado, uma alimentação deficiente em nutrientes essenciais contribui para o enfraquecimento dos dentes e das gengivas, tornando o idoso mais vulnerável a cáries, doenças periodontais e perda dentária. O cálcio, a vitamina D e as proteínas são especialmente importantes para a saúde bucal na terceira idade, e sua deficiência é comum em idosos com dietas restritas por limitações econômicas ou por dificuldades de mastigação já existentes.
Autoestima, dignidade e o poder de um sorriso cuidado
Existe uma dimensão emocional e social da saúde bucal que merece atenção especial no cuidado ao idoso. A aparência dos dentes influencia diretamente a autoestima, a disposição para sorrir e a confiança para se comunicar e interagir socialmente. Um idoso envergonhado com sua condição bucal tende a sorrir menos, a falar menos e a evitar situações sociais que o exponham.
Yuri Silva Portela frisa que o tratamento odontológico oferecido pelo Humaniza Sertão não é apenas uma intervenção de saúde física. É um gesto de restauração da dignidade e da autoestima de pessoas que viviam com problemas bucais que limitavam sua qualidade de vida de formas que iam muito além da dor física.
Assim que um idoso termina seu atendimento com dentes tratados, com uma prótese que funciona adequadamente ou simplesmente com a certeza de que alguém se importou com sua saúde bucal, algo importante muda em como ele se vê e em como se relaciona com o mundo.
Incluir os tratamentos de saúde bucal no cuidado geriátrico é questão de saúde integral
Cuidar da saúde bucal do idoso não é um complemento ao cuidado geriátrico. É parte essencial dele. Ignorar essa dimensão é tratar o idoso de forma incompleta, deixando aberta uma porta por onde infecções, deficiências nutricionais e sofrimento emocional continuam entrando. O Humaniza Sertão, ao incluir dentistas em sua equipe multidisciplinar, demonstra na prática o que significa levar a sério o cuidado integral.
A visão do doutor Yuri Silva Portela sobre saúde como um estado de equilíbrio que contempla todas as dimensões do ser humano é o fundamento que torna esse projeto tão relevante e tão necessário. Cada especialidade presente na equipe é um reconhecimento de que o idoso é muito mais do que sua doença principal, e que cuidar dele de verdade exige olhar para tudo.
Se você tem um familiar idoso que não visita um dentista há muito tempo, este é o momento de providenciar essa consulta. A saúde bucal é saúde, e cuidar dela é um ato de amor que tem consequências positivas em toda a vida do idoso.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

