Em meio às transformações recentes na forma de projetar casas e apartamentos, um elemento antigo ganha protagonismo: os espaços de transição entre o interior e o exterior. Diante dessa retomada, Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, destaca o retorno de varandas amplas e alpendres bem projetados em residências que antes priorizavam apenas ambientes internos fechados.
Presentes desde a arquitetura colonial brasileira, esses espaços intermediários ganham nova leitura atualmente, incorporando esquadrias retráteis, pisos contínuos e coberturas bioclimáticas que aproximam ainda mais a casa do quintal, do jardim ou da paisagem ao redor.
Neste artigo, você vai entender o que diferencia varandas e alpendres, de onde vem essa tradição e por que esses espaços continuam tão relevantes no projeto contemporâneo.
O que caracteriza um espaço de transição na arquitetura?
Um espaço de transição funciona como um intermediário entre o ambiente totalmente fechado e a área externa exposta ao clima, oferecendo proteção contra sol e chuva sem o fechamento completo de um cômodo tradicional. Varandas gourmet, alpendres de entrada e terraços cobertos cumprem essa função, criando uma zona que amplia o uso da casa sem depender de climatização artificial durante boa parte do ano.
Como esclarece Daugliesi Giacomasi Souza, esses ambientes deixaram de ser apenas um espaço de passagem e passaram a concentrar funções antes reservadas ao interior da casa, como refeições, momentos de trabalho informal e recepção de visitas. Projetar esse tipo de área desde a planta original, e não como um acréscimo posterior, permite explorar melhor a ventilação cruzada, a orientação solar e a integração visual com o restante do terreno.
Diferenças entre alpendre e varanda no projeto contemporâneo
Embora usados de forma intercambiável no dia a dia, alpendre e varanda carregam origens e funções distintas dentro da arquitetura brasileira. O alpendre está mais associado à tradição rural e colonial, funcionando como extensão do próprio telhado sobre a entrada da casa, com função primordialmente protetora e caráter mais simples de acabamento. A varanda, por outro lado, pertence a um repertório mais urbano e contemporâneo, costuma ocupar área maior e recebe infraestrutura completa, com churrasqueira, bancada e espaço de estar totalmente equipado.

Segundo relata Daugliesi Giacomasi Souza, essa distinção ajuda a orientar decisões de projeto desde o início, já que um alpendre bem resolvido pede proporção e simplicidade, enquanto uma varanda gourmet exige planejamento de instalações elétricas, hidráulicas e de ventilação compatível com o uso intenso do espaço. Reconhecer essa diferença evita que o ambiente final fique subaproveitado ou incompatível com a rotina de quem vai utilizá-lo.
Origem do alpendre e sua função no clima brasileiro
O alpendre remonta à arquitetura bandeirista do interior de São Paulo e a outras tradições construtivas coloniais, adaptadas ao calor e às chuvas intensas de boa parte do território brasileiro. Antes da climatização artificial, esse elemento já desempenhava papel decisivo no conforto térmico das residências, protegendo fachadas, portas e janelas da incidência direta do sol e da chuva, ao mesmo tempo em que favorecia a ventilação natural dos ambientes internos.
Na concepção de Daugliesi Giacomasi Souza, resgatar esse tipo de solução em projetos atuais representa uma alternativa eficiente frente à dependência crescente de ar-condicionado em regiões de clima quente. Coberturas bem dimensionadas, pilares proporcionais e materiais naturais reproduzem, de forma contemporânea, a mesma lógica que tornou o alpendre uma solução tão duradoura na arquitetura brasileira.
Por que esses espaços intermediários fazem tanta diferença no conforto?
Projetos recentes têm investido em esquadrias de canto retráteis, que eliminam a quina estrutural entre sala e varanda, além de pisos contínuos que atravessam o mesmo material do ambiente interno até a área externa, sem soleiras ou desníveis. Pérgolas bioclimáticas, com lâminas orientáveis que controlam a entrada de sol e a ventilação, substituem coberturas fixas e permitem ajustar o espaço conforme o horário e a estação do ano.
Como argumenta Daugliesi Giacomasi Souza, a multifuncionalidade também se tornou critério central nesse tipo de projeto, com varandas que assumem, ao longo do dia, papel de sala de jantar, área de trabalho informal ou espaço de descanso. Essa flexibilidade explica por que espaços de transição bem planejados aumentam a sensação de amplitude da casa inteira, mesmo quando a metragem total do imóvel permanece a mesma.
Entre alpendres que remetem à tradição rural e varandas totalmente equipadas para o dia a dia urbano, o que esses espaços têm em comum é a capacidade de tornar a casa mais aberta ao clima, à luz e ao convívio, sem abrir mão da proteção que os ambientes fechados oferecem.

