Projeto federal usa cabos de fibra óptica submersos para levar conectividade a áreas ribeirinhas entre Amazonas e Rondônia, com previsão de beneficiar centenas de milhares de pessoas
Rondônia começou a receber, nesta semana, os primeiros cabos de uma infraestrutura que pode transformar o acesso à internet em municípios até hoje isolados digitalmente. A Infovia 05, projeto conduzido pelo Ministério das Comunicações em parceria com a Anatel e executado pela Entidade Administradora da Faixa (EAF), instala fibra óptica diretamente no leito do rio Madeira para conectar comunidades entre o Amazonas e Rondônia. A dúvida que surge naturalmente para moradores da região é: como uma obra de infraestrutura debaixo d’água pode, de fato, mudar a rotina de quem vive longe dos grandes centros urbanos?
Como funciona a instalação da fibra óptica pelo rio
A Infovia 05 terá 1.326 quilômetros de extensão, sendo a maior parte, 1.116 quilômetros, composta por cabos de fibra óptica instalados no próprio leito do rio Madeira. O percurso liga nove municípios, com início na comunidade de São Raimundo Nonato, em Autazes (AM), e término em Porto Velho. A escolha por instalar a rede dentro do rio não é acidental: em regiões amazônicas, onde a geografia dificulta a implantação de infraestrutura terrestre tradicional, os cursos d’água funcionam como corredores naturais para o lançamento de cabos, reduzindo custos e evitando a necessidade de abrir extensas faixas de servidão em áreas de floresta.
O projeto integra o programa Norte Conectado, iniciativa federal que prevê a construção de nove grandes infovias ao longo de aproximadamente 13 mil quilômetros de rios amazônicos, com investimento total de R$ 1,3 bilhão. Ao todo, a expectativa é beneficiar cerca de 7,5 milhões de pessoas distribuídas por seis estados da região Norte, entre eles Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima.
O impacto esperado para escolas, hospitais e moradores ribeirinhos
Segundo estimativas do próprio programa, a conclusão da Infovia 05 deve ampliar o acesso à internet para aproximadamente 700 mil pessoas na região amazônica. Além de residências, a nova rede vai conectar instituições públicas estratégicas, como escolas e unidades de saúde, o que tende a facilitar desde o uso de plataformas de ensino remoto até o funcionamento de sistemas de telemedicina em localidades onde o atendimento presencial especializado ainda é escasso.
A CEO da EAF, Gina Marques, destacou que o impacto do projeto vai além do aspecto puramente tecnológico, com reflexos diretos na qualidade de vida das comunidades amazônicas. Para moradores ribeirinhos, a chegada de conectividade estável pode representar mais do que lazer digital: abre caminho para acesso a serviços públicos essenciais, comunicação com familiares distantes e até novas possibilidades de trabalho remoto em regiões historicamente isoladas do restante do país.
Como o modelo de rede neutra deve funcionar na prática
Um dos pontos centrais do projeto é o modelo de operação baseado em rede neutra, que permite que diferentes empresas de telecomunicações e provedores locais utilizem a capacidade da fibra óptica instalada, sem depender de um único operador dominante. Na prática, isso significa que provedores regionais menores, muitas vezes os únicos presentes em cidades do interior amazônico, poderão contratar capacidade na Infovia 05 para ampliar suas próprias ofertas de banda larga, em vez de depender exclusivamente de conexões via satélite ou rádio, historicamente mais caras e instáveis.
O coordenador-geral de Projetos de Infraestrutura do Ministério das Comunicações, Ângelo Lorenzo, acompanhou a visita técnica ao ponto de lançamento dos cabos e reforçou que a nova infovia amplia a disponibilidade de conectividade e fortalece a infraestrutura digital de toda a região. A expectativa do governo federal é que, à medida que as demais infovias do programa Norte Conectado avancem, o Norte do país reduza progressivamente o gargalo histórico de conectividade que afeta especialmente municípios distantes das capitais.
Para Rondônia, que já vinha recebendo outros investimentos em infraestrutura digital, como a expansão de backbones de fibra óptica realizada por empresas privadas com recursos do Funttel, a chegada da Infovia 05 reforça uma tendência de fortalecimento da malha de telecomunicações do estado. Nos próximos meses, o avanço da obra ao longo do rio Madeira deve ser acompanhado de perto por prefeituras e provedores locais, que vão precisar se organizar para aproveitar a nova capacidade de rede assim que ela estiver operacional.
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