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Tecnologia

Rondônia usa inteligência artificial para prever incêndios florestais com o projeto Sentinela

Haruki Minavara
Haruki Minavara agosto 28, 2026 11 Min de leitura
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Ferramenta criada pela Setic passou a usar um modelo matemático adaptado à Amazônia para antecipar risco e direção das queimadas no estado.

Contents
O que é o projeto Sentinela e como ele nasceuComo a inteligência artificial passou a prever o comportamento do fogoReconhecimento nacional e os próximos passos da tecnologia rondoniense

Enquanto boa parte do debate nacional sobre inteligência artificial no setor público ainda gira em torno de planos e promessas, Rondônia já tem um projeto rodando há mais de dois anos e colhendo resultados concretos no combate a um dos problemas mais recorrentes da Amazônia: os incêndios florestais. O projeto Sentinela, desenvolvido pela Superintendência Estadual de Tecnologia da Informação e Comunicação (Setic), começou como uma ferramenta simples de alerta e hoje já incorpora análises preditivas capazes de estimar para onde o fogo deve se espalhar antes mesmo de as chamas avançarem. O caso chamou atenção em eventos nacionais recentes, entre eles o Seminário Nacional de TIC para a Gestão Pública, o Secop, realizado em Brasília no início de agosto, onde Rondônia foi citada como exemplo prático de como transformar um projeto piloto em infraestrutura permanente de governo.

O que é o projeto Sentinela e como ele nasceu

O Sentinela nasceu em 2024 como um projeto piloto, concebido inicialmente como uma espécie de chatbot capaz de filtrar e organizar dados sobre focos de incêndio e queimadas. A ferramenta bebe de fontes já existentes, como o Painel do Fogo, sistema mantido pelo Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), vinculado ao Ministério da Defesa, além de imagens de satélite, incluindo dados de monitoramento da agência espacial norte-americana. Em vez de obrigar bombeiros e gestores a garimparem informações em diferentes plataformas, o sistema cruza esses dados automaticamente e os apresenta de forma direta, algo que antes dependia de análise manual e, por isso, consumia um tempo precioso justamente nos momentos em que a resposta rápida faz diferença.

Ainda em sua fase de piloto, o Sentinela já mostrou capacidade de gerar impacto prático: somente em 2024, o sistema emitiu mais de três mil alertas que ajudaram diretamente na atuação do Corpo de Bombeiros Militar de Rondônia, contribuindo para a detecção precoce de focos de incêndio antes que se transformassem em ocorrências de grande porte. Os alertas passaram a ser enviados automaticamente por aplicativo de mensagens instantâneas diretamente às equipes responsáveis pela região afetada, substituindo processos que antes dependiam de comunicação manual entre diferentes órgãos.

Com o amadurecimento da ferramenta, o Sentinela deixou de ser apenas um sistema de alerta e passou a integrar outras camadas de informação relevantes para quem está no comando das operações. A tecnologia incorporou dados sobre o efetivo de bombeiros disponível, as rotas de deslocamento até os focos identificados e características do terreno na região afetada, informações que ajudam a estimar não apenas onde o fogo está, mas também qual é a forma mais rápida e segura de chegar até ele. Essa evolução foi acompanhada da criação de uma sala de situação, um ambiente tecnológico que permite acompanhar em tempo real dados como viaturas, efetivo e localização dos focos, dando aos operadores estratégicos uma visão integrada que antes simplesmente não existia.

Como a inteligência artificial passou a prever o comportamento do fogo

O avanço mais recente do projeto, apresentado por Delner Freire, superintendente da Setic, durante o painel sobre inteligência artificial no setor público realizado no Secop 2026, é o que diferencia o Sentinela da maioria das ferramentas de monitoramento ambiental existentes no país. A equipe da Setic incorporou análises preditivas capazes de estimar áreas com maior risco de incêndio e prever a direção de propagação das chamas a partir da adaptação do modelo matemático de Rothermel, uma referência internacional usada para calcular o comportamento do fogo, às características específicas da Amazônia.

Esse tipo de adaptação não é trivial. O modelo de Rothermel foi originalmente desenvolvido para prever incêndios em outros tipos de vegetação e clima, e ajustá-lo à realidade amazônica, com sua umidade, densidade de vegetação e padrões próprios de queimada, exige um trabalho técnico que vai além de simplesmente importar uma fórmula pronta. Segundo Freire, o resultado desse ajuste é a possibilidade de antecipar cenários e apoiar decisões operacionais muito antes de o problema chegar ao campo, o que na prática significa que o Corpo de Bombeiros pode se posicionar de forma preventiva em áreas de maior risco, em vez de apenas reagir depois que um foco já foi identificado.

Essa mudança de postura, de reativa para preventiva, é um dos pontos centrais no debate nacional sobre o uso de inteligência artificial no setor público, que também foi discutido no mesmo painel do Secop. Especialistas de outros estados, como o presidente da Prodepa, Fernando Marroquim Junior, destacaram que a inteligência artificial só se transforma de fato em infraestrutura de governo quando deixa de ser um projeto isolado e passa a gerar capacidades reutilizáveis por toda a administração pública, com regras claras de acesso a dados e padrões de qualidade que permitem que outros projetos aproveitem o que já foi construído. O caso de Rondônia foi citado justamente como exemplo desse tipo de amadurecimento, já que o Sentinela nasceu pequeno, em 2024, e hoje já opera com uma arquitetura mais robusta de dados, alertas automatizados e modelagem preditiva.

Vale destacar que esse tipo de avanço tecnológico não acontece isoladamente. Ele depende da integração entre diferentes órgãos e níveis de governo, algo que o próprio Sentinela já colocou em prática ao expandir sua atuação para além do nível estadual, somando esforços com a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental, a Defesa Civil e órgãos municipais responsáveis pelo meio ambiente, além de manter articulação com a Força Nacional durante períodos críticos de queimadas.

Reconhecimento nacional e os próximos passos da tecnologia rondoniense

O amadurecimento do projeto rendeu a Rondônia um espaço de destaque em um dos maiores eventos de inovação pública do país. Em junho deste ano, o estado apresentou o chamado Programa Sentinela no GovTech Summit, realizado em Porto Alegre e considerado uma das principais vitrines nacionais de transformação digital na gestão pública. Na ocasião, a ferramenta foi descrita como uma plataforma estruturada em três eixos principais, a sala de situação para monitoramento estratégico, a captação de dados por satélite para identificação de focos de calor em tempo real e um sistema batizado de Smoke 360, voltado ao apoio direto das operações em campo.

Segundo o governo estadual, a integração entre tecnologia, dados e atuação em campo contribuiu diretamente para o desempenho de Rondônia na redução de focos de calor registrada em 2025, um resultado que reforça o argumento central defendido pela equipe da Setic: a inteligência geoespacial, quando bem aplicada, tem potencial de uso que vai muito além do combate a incêndios, podendo ser adaptada para outros desafios ligados a mudanças climáticas e eventos extremos que já afetam a região amazônica com frequência crescente.

Esse tipo de reconhecimento também ajuda a colocar Rondônia em uma posição pouco comum no cenário nacional de tecnologia aplicada à gestão pública. Enquanto estados com estruturas de tecnologia da informação historicamente mais robustas, como Minas Gerais e Paraíba, discutem a criação de bases integradas de dados e comitês de governança em estágio ainda inicial, Rondônia já apresenta um caso de uso maduro, testado ao longo de mais de duas temporadas de queimadas e validado por resultados mensuráveis, como a redução de focos de calor e o número expressivo de alertas emitidos desde o lançamento do projeto piloto.

Do ponto de vista prático, o próximo passo do Sentinela deve ser consolidar essa base tecnológica como parte permanente da estrutura de resposta a emergências ambientais em Rondônia, ampliando parcerias com municípios e outros órgãos de proteção ambiental. A experiência acumulada pela Setic também abre espaço para que a mesma lógica de cruzamento de dados e modelagem preditiva seja aplicada a outros tipos de risco enfrentados pelo estado, reforçando um movimento mais amplo observado no setor público brasileiro, no qual a inteligência artificial deixa de ser um experimento isolado para se tornar, de fato, uma ferramenta de trabalho no dia a dia da gestão pública.

Fontes:

  • SECOP 2026: Inteligência Artificial redesenha modelos de contratação na TI governamental – ConvergenciaDigital
  • Rondônia apresenta Programa Sentinela em maior evento de inovação pública do país – News Rondônia
  • Rondônia apresenta tecnologia de combate às queimadas no maior evento de transformação digital do setor público – Agência Rondônia
  • Governo de RO apresenta projeto para aprimorar monitoramento e combate a incêndios no estado – Governo do Estado de Rondônia

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