Depois de anos marcados por crise e escassez, o cacau brasileiro vive um momento de recuperação. Nesse contexto, o empresário Alfredo Moreira Filho, cuja trajetória começou na roça em Igrapiúna, no Baixo Sul da Bahia, região onde o cacau faz parte da paisagem produtiva, entende que acompanhar essa retomada ajuda a compreender como uma cultura tradicional pode se reinventar diante de novos mercados e novas fronteiras.
A estimativa mais recente do IBGE aponta uma safra nacional de 320,9 mil toneladas neste ano, crescimento de 8,9% em relação ao ano anterior. O avanço, porém, não acontece de forma uniforme e vem acompanhado de desafios na indústria e no mercado internacional. Entenda, nos tópicos a seguir, o que está mudando na cadeia do cacau e o que isso significa para quem produz.
Da crise à retomada
O cacau chegou ao Brasil no século XVII e encontrou na Bahia as condições ideais para prosperar. No início do século XX, o estado era um dos maiores produtores do mundo, e cidades inteiras do sul baiano se desenvolveram em torno da lavoura. A situação mudou drasticamente com a chegada da vassoura-de-bruxa, doença causada por um fungo que devastou plantações e levou à perda de milhares de empregos.
A recuperação foi lenta, mas os números atuais mostram uma nova fase. No primeiro semestre deste ano, o recebimento de amêndoas pelas indústrias processadoras somou 95.108 toneladas, uma forte alta em relação ao mesmo período do ano anterior. Segundo Alfredo Moreira, esse movimento revela que a cadeia aprendeu com a crise, apostando em variedades mais resistentes e em novas regiões de cultivo.
Pará e Bahia: dois modelos diferentes
Hoje, Pará e Bahia respondem juntos por mais de 92% da produção brasileira, mas com perfis bem distintos. O Pará assumiu a liderança nacional e deve colher cerca de 158,4 mil toneladas neste ano, o equivalente a 49,4% do total do país. A expansão paraense se concentra na região da Transamazônica, onde o cacau é cultivado com frequência em sistemas agroflorestais.

A Bahia, por sua vez, mantém a maior área colhida, com quase 429 mil hectares, contra cerca de 163 mil no Pará. A diferença está na produtividade: dados da Produção Agrícola Municipal mostram rendimento médio de 841 quilos por hectare no Pará e de 319 quilos na Bahia, onde boa parte das lavouras ainda segue o sistema tradicional de cabruca, à sombra da Mata Atlântica. Na análise de Alfredo Moreira Filho, essa diferença indica que o desafio baiano está menos em expandir a área e mais em recuperar a produtividade das lavouras já existentes.
Mais oferta, indústria ainda lenta
O aumento da oferta trouxe um dado simbólico. No segundo trimestre deste ano, pela primeira vez em quatro anos, o Brasil não precisou importar amêndoas de cacau. A Bahia concentrou 56,8% do volume recebido pela indústria, e o Pará chegou a 38,8%.
A moagem, porém, não acompanhou o mesmo ritmo e cresceu apenas 3,6% no semestre, somando 101.426 toneladas. No mercado internacional, os preços entraram em trajetória de queda após os picos históricos registrados nos anos anteriores, e consultorias projetam excedentes globais de cerca de 287 mil toneladas na safra atual e de 267 mil na seguinte. Conforme sinaliza Alfredo Moreira, o cenário exige atenção dos produtores, porque mais oferta com demanda fraca tende a pressionar a remuneração de quem está no campo.
Novas fronteiras e riscos para o produtor
Além de Bahia e Pará, o cacau avança em Rondônia, atrai investimentos no Cerrado e começa a aparecer em áreas experimentais de estados como São Paulo e Minas Gerais. Em algumas regiões, a cultura é integrada à pecuária ou associada ao turismo rural e à produção de chocolate artesanal.
O entusiasmo, no entanto, precisa considerar os riscos. A planta leva pelo menos três anos para produzir de forma consistente, o que dificulta acompanhar as oscilações de preço. A vassoura-de-bruxa continua sendo a principal doença nas áreas mais úmidas, com potencial de perdas de até 80%, e eventos climáticos podem provocar estiagens severas. À luz do que frisa Alfredo Moreira Filho, o futuro do cacau brasileiro dependerá, portanto, da capacidade de combinar produtividade, controle de custos e planejamento de longo prazo.

